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Antiguidade moderna

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*Heródoto contava que certa vez, havia um soldado chamado Decius que invadiu uma propriedade alheia em perseguição a um conhecido fora da lei chamado Lucius. Este, possuidor de uma oratória muito convincente, vivia roubando muita gente, em especial os mais pobres daquele reino. Depois de muita perseguição, Decius conseguiu finalmente capturá-lo. Porém como este bandido era amigo de muitos nobres, varias foram as tentativas de resgate, incluindo um salvo conduto por escrito. Percebendo a fragilidade da situação, Decius pediu ajuda ao magistrado local, um homem chamado Bergius. Os dois se aconselharam sobre como apresentar as provas e como conduzir o processo afim de impedir a intervenção da nobreza e mesmo assim manter a imparcialidade no julgamento. Quando os amigos de Lucius descobriram as cartas trocadas entre Decius e Bergius, imediatamente foram até a praça principal da cidade a pedir que o rei prendesse ambos. O argumento da turba enfurecida era de que houve conluio. Não bastasse,...

Pontos de vista

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Certa vez, um especialista de Harvard fez uma experiência: deu a dois grupos distintos as mesmas informações sobre uma determinada empresa. Frisou aos dois grupos que a avaliassem o mais corretamente possível, ou seja, o quanto julgavam que valia independente de qualquer situação. Depois, a um grupo incumbiu de desenvolver argumentos para a venda da empresa, e a outro grupo a compra. Como resultado descobriu que os vendedores julgavam que a empresa valia cerca de 30% mais que seu preço de mercado, enquanto que os compradores acreditavam que valia cerca de 30% menos que seu real valor. Cada grupo desenvolveu uma leitura própria, enfatizando o que criam fazer sentido, atenuando e talvez até ignorando o que não interessava. Em tempos de polarização como os que vivemos, é inútil defender somente a própria tese. Precisamos compreender que cada um dispõe de informações e experiências que complementam seu julgamento. Nem mesmo a imprensa é isenta. Portanto, precisamos nos tornar mais humildes...

A fossa abissal da música brasileira

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Outro dia, conversando com um conhecido meu, entramos no assunto músicas da atualidade. Ao perceber minha reação no momento em que citou Pablo Vitar, fui indagado se odiava o “artista” apenas por causa de sua opção sexual. Duro foi convencer o cidadão que uma coisa não tinha nada a ver com outra. Tarefa especialmente complicada numa sociedade “mimizenta” e “politicamente correta” como a que vivemos atualmente, onde pessoas inteligentes cedem à tolices como grafar as palavras menino e menina como “meninx”. Como a pura argumentação não bastou, resolvi citar um exemplo. Citei um Artista com A maiúsculo: - Ney Matogrosso, que independente de sua opção sexual cantava e canta músicas com maestria e coragem. Coragem essa posta à prova em plena ditadura militar, onde encantou o Brasil no grupo Secos e Molhados. Possivelmente meu conhecido sequer sabia da existência deste grupo ou do Ney. Curioso, espero que pesquise um pouco e descubra que nosso país foi, e ainda é, muito mais que essa soma de...

São Paulo - uma caminhada com Vítor Hugo e Mozart

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Por conta de um compromisso pessoal, precisei ir ao centro de SP ontem pela manhã. Ao caminhar por nossas ruas sujas e becos abandonados, notei a quantidade enorme de pedintes e maltrapilhos que se acumulam em cada reentrância dos encardidos edifícios de nossa cidade. Se estivessem a falar francês, diria que havia entrado no palco da peça Os Miseráveis de Vítor Hugo. E analogamente ao retratado tanto na peça quanto no livro homônimo, nossa sociedade vive o mesmo desperdício, a mesma perda irreparável de capital humano. Ao olhar nos olhos de cada um, fico a pensar se não estou olhando para um Mozart que jamais poderá ser, um Einstein que não teve chance, um Descartes que não vingou.  O problema da corrupção endêmica em que nosso país vive mergulhado, não é só que ela mata a geração atual, mas mata também o futuro, os sonhos e aspirações de uma nação que poderia ser grande, que poderia protagonizar, quando se contenta apenas a ficar nos bast...

Pequeno avanço

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Estudei em escola pública, numa época em que a velha política ainda não a tinha destruído. Como parte das atividades requeridas pelos ótimos professores que tive, havia a leitura obrigatória de clássicos como Triste Fim de Policarpo Quaresma, Senhora, Dom Casmurro, além dos deliciosos livros da Coleção Vaga-lume. Um dos livros que muito me influenciou foi Poliana, que me ensinou a enxergar o lado otimista da vida, a despeito das dificuldades que certamente chegam e se impõem à todos. E neste espírito, totalmente Poliana, tenho acompanhado com um certo orgulho as acaloradas discussões nas redes sociais sobre a política e a eleição vindoura. Com muito prazer tenho visto que o paradigma de política, a exemplo de religião e futebol “que não se discutem”, agora pelo contrário, é um assunto corriqueiro, deixando de ser tabu, mas debatido ampla e abertamente. Naturalmente como temos uma democracia muito jovem, ainda não sabemos ao certo como nos portar, com discussões que raramente são profun...

Estranha polarização

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Tenho acompanhado assustado o andamento da campanha eleitoral deste ano. Surpreendo-me percebendo que a polarização em nosso país aumenta sensivelmente a medida que nos aproximamos das eleições. De cada lado tanto a extrema direita quanto a extrema esquerda, degladiam-se a tentar provar que seu opositor é o pior. Contudo, creio que há uma grande gama de conservadores de centro que não acreditam mais em ambos. E estes são os que mais estão a sofrer. Explico: - para quem é de extrema direita, ver Bolsonaro ser eleito os fará muito feliz, ainda que este candidato seja terrível para nossa democracia e acabe por se mostrar um retrocesso em causas já tidas como ganhas. De igual modo, para a turma de esquerda, ver um Haddad bancando papel de marionete para um títere encarcerado, também os fará felizes, apesar do desastre que isso significará para nosso país. Portanto, cada um destes, à sua própria maneira, tem uma chance grande de se ver feliz (ainda que apenas momentaneamente, pois certament...

Desconfio de certezas

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Me perguntaram outro dia se confio mais num ateu ou em alguém que professa a mesma fé que eu. Respondi que tendo a desconfiar de ambos e exatamente pelo mesmo motivo: - são cheios de certezas. Neste quesito, considero mais honesto o agnóstico, que aceita a dúvida como parte de seu aprendizado, pacientemente coletando novas informações, rejeitando o que foi reprovado até um dia juntar o suficiente pra poder validar sua decisão racional. E antes que algum crítico de plantão se pronuncie quanto a minha “falta de fé”, respondo com um argumento típico de um agnóstico: - “ausência de evidência não é evidência de ausência“